sábado, 9 de janeiro de 2010

Passado



É estranho ouvir a si quando o externo se aquieta.
O coração respira compassadamente,
a pele ouve, sua, sente.
A boca balbucia coisas sem sentido.
Quando a casa cala, os fantasmas aparecem.

incidente da menina e o cachorro



No vai e vem de ruelas e fumaça, a pequenina seguia para mais um fim de dia exaurido em papéis, cansaço, papéis.
As calçadas encardidas falavam com os pés ágeis da garota, que simplesmente as ignorava com um ar de estarem cansados demais para dar atenção a elas. Seus passos trôpegos seguiam os comandos de um corpo miúdo, batido, e corriam diretamente para o aconchego do lar, do café materno e dos lençóis recém lavados; sua mente, contudo, vagava por dentro dos carros, capacetes, guarda-chuvas e tudo o mais que pulsava a sua volta. Sim, guarda-chuvas podem surpreender!
Seus olhinhos oleosos pelo vento úmido vagavam sem parar no semáforo, sem andar na faixa. Uma quadra,um vendedor de sorvete, duas quadras... Um cachorro.
Um cachorro.
Postava-se ali, logo a sua mínima frente, o cachorro remelento que todas as outras divagantes mentes insistiam em chutar com seus sapatos, sujos da merda do mesmo cachorro. Sim, a vingança acontece em todos os planos.
Ele estava ali, sem se importar com sua vida animal, sem queixar-se das pulgas que provavelmente estariam roendo-lhe as orelhas caídas. Os pelos eram de um marrom turvo, envelhecido, e seu focinho matuto tremia vez ou outra. O que mais a fascinou, porém, não foi a aparência ridícula e corriqueiramente canina, mas a posição do animalzinho... ele dormia em pé. Absurdamente ereto, a cabeça pendendo para o lado e os olhinhos delicadamente fechados, como se o torpor da vida humana com seus carros e egoísmo não existisse. Como se nada mais prazeroso houvesse que uma soneca no asfalto ardido. Um cão. Sem nome ou peripécias a contar, e sem depositar mínima atenção à pequena mulher translúcida parada na sua frente.
Ela mal piscava. O que tentara a vida toda fazer e raramente conseguira, um singelo pulguento fazia com facilidade na calçada... Abstrair-se.
Todos os sons, palavras cuspidas e movimentos começaram a enojá-la... Será que ninguém havia notado o ilustríssimo cão? Ninguém, mas ela, ficara impressionado diante tamanho poder sobre si mesmo? Não, ninguém se importava. A correria continuava sem nunca dormir, e os terninhos que se escondiam debaixo dos guarda-chuvas exalavam indiferença diante da vida alheia. Não mudaria se fosse um peixe fora d’água.Não, não mudaria se fosse um leão.
Tomando fôlego, desejou intimamente possuir aquela alma canina, e, despedindo-se da imagem, continuou a caminhada, com o coração na contra-mão.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

CATARSE

Você entrou na minha vida do nada, sem pedir passagem ou permissão, como aqueles ventos que invadem a nossa janela em noites monótonas. E o vento era agridoce, calmo, que me aconchegava e me fazia pedir mais, sedenta não só pelo vento, mas pela tempestade que temia também por vir. Eu ansiava por teu cheiro de terra molhada, queria ficar cega com sua luz, surda com sua voz trovão. Queria tudo e ao mesmo tempo nada... Só a amizade já me faria aquietar o espírito. E você, como que lendo nas entrelinhas do meu pensamento, fez por merecer e tomou minha mente por dias a fio.
Esses dias causaram deleitamento profundo em meu coração, cabelos, pele, mãos. Sentia-me feliz por meus dedos conversarem com seus risos nas horas monótonas do trabalho e, vez ou outra, escutar sua voz constipada, falha e internamente doentia pelo telefone. Era uma droga pra mim, daquelas que te deixam no perfeito estado de querer fazer tudo e nada ao mesmo tempo, e ao fim só contemplar como as coisas não eram tão ruins como eu pensava.
Do nada, sem mais ou motivos, o vento cessou. Minha pele secou, meus olhos – antes cegos e felizes – agora voltam a enxergar a dureza dos dias de escritório, a verdade crua de que, na verdade, isso nunca existiu. Drogas provocam alucinações, ficou comprovado. Um ano inteiro de tempestades, bater de janelas, arco-íris, e hoje... Nada. Somente a aridez dos dias roendo-me a garganta e dando coceira. Esse ardor há dias mastigando meu estômago, me cutucando no interno desejo de querer fazer o que meus dedos agora fazem a vez, explodir.
Não sei por que ainda perco tempo ritmando palavras das mais variadas formas, pra ver se a sua atenção é chamada - você não merece – muito menos entendo porque minha mente insiste em pensar que um dia você vai voltar e delicadamente por a ordem tão confusa e desaprumada de volta. Na verdade, meu coração não quer mais isso... Isso são só minhas veias pulsando incompreensão qualhada, esperando que as palavras de alguma forma me limpem os canos, vísceras e sentimento. Nada mais é também do que um ponto final que imponho a mim mesma.
Se um dia tiver a remota idéia de pensar em me procurar, que a acidez te corroa os pensamentos e nada sobre senão gesso. E se um dia o arrependimento pela ausência repentina tomar seu ser, quero que tenha consciência de que as janelas se quebraram, a grama está seca, e as estradas que nos separam saíram do plano do asfalto pra entrar no do orgulho; você perdeu a oportunidade de ver o melhor de mim, meu melhor lado e cor.

E essa cor não volta mais.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Progressiva

Erga a cabeça, limpa teu céu
sê presente, pensante, agente.

O tempo conta denovo...
Tire-me o folego desta vez.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Desértico





Há tempos não chovia... Agora as gotas caiam do céu cinzento que a pouco fora azul confuso, e o cheiro de terra molhada começava a impregnar o quarto do homem, que, encostado no parapeito da janela aberta, hipnotizava-se com o movimento das gotículas de água se juntando umas nas outras, na vidraça arranhada.


Aquele fenômeno sempre o atraíra. Desde pequeno, com seus quatro ou cinco anos, de aparência franzina e retraída, adorava paralisar seu início de vida e sentar-se perto de algum objeto de vidro exposto à água provinda do céu inundado por solidão e vida - ao mesmo tempo. Agora, passado trinta anos, era daqueles homens fisicamente invejáveis: robusto, alto, de pele genuinamente bronzeada e lisa como pérola; seus dentes perfeitamente alvos expressavam um sorriso descansado, e sua boca corretamente contornada pelo vermelho mais vivo da rosa seduzia mulheres e seus corações; mas seus olhos, tão pão de mel e sequiosos, buscavam algo mais; sentia que sua vida se mantinha em completa aridez, que seus pulmões se enchiam de esperança encardida e nada entrava senão turbidez, motivo este talvez o causador da embriaguez que sentia ao ver o movimento das águas.

Ainda no parapeito da mesma janela cor marfim, agora dissipado entre o passado e o presente, lembrou-se dos tempos de canela fina; as gotinhas,naquela época, tão miúdas quanto ele, corriam sobre o vidro irregular, impulsionados pelo vento cortante que ardia-lhe as narinas. Corriam tão rápido quanto o possível, para juntar-se a outras menores ainda e metamorfosear-se em manchas aquosas de tamanho notório... O menino ficava fascinado ao olhar qual molécula chegaria primeiro ao meio comum, e se juntaria... A primeira gotinha, a segunda gotinha... A terceira era ele. Tão veloz quanto podia, escorregava por entre as frestas da janela, ávido por inundar-se em conhecimento, em magia e encanto pela vida.

Hoje, não se entendia... Era oceano profundo, era maremoto de areia que confundia-lhe os sentidos, ditando erroneamente seus caminhos e transbordando sua mente de fatos secos. Não podia ele voltar a ser criança? Queria poder sentir novamente a sensação de contentamento consigo mesmo, e ao mesmo tempo vontade de explorar o desconhecido. Queria não se perder na mancha d’água que era sua vida de olhar pernas bonitas, beijar batons caros... e nada. O vazio impregnava-se cada vez mais por todo seu ser, fazendo com que a foz de sua mente desaguasse em sua alma desejos esmaecidos, sem cor ou força para lutar contra a corrente.

Passou o dedo pela superfície do vidro; a água lhe escorreu pelos dedos fugindo da seca. Ele, tão lindo e tão nada, percebeu que sua vida escapava-se dela mesma, procurando outros canais para correr... Colocou novamente os dedos no vidro e pressionou-os contra a boca, engolindo a constatação.

A tempestade dentro de si começaria logo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Mesa Farta

Mais uma noite de jantar em família. Corpos miúdos, obesos e ora alongados circundam a mesa forrada com pano listrado, arrebatada de comida, copos e mentiras.
O pai, um homem de beleza clássica, terno engomado com botões de ouro; sapatos perfeitamente engraxados e olhos inexpressivos. Sua boca parecia feita de pregas falciformes que desciam até o início do queixo, coberto por uma camada fina e quase imperceptível de pelugem ruiva.
As crianças eram duas. Um menininho delicado, frágil e aparente, com olhinhos bolinhas de gude e bochechas de morango maduro; seu cabelo liso e louro descia por entre o chapeuzinho cinza com botões de ouro, combinando com os do pai magricela. Seu comportamento mostrava uma criança abatida, de alegria enrustida e sedento de fala, de palavra e ação. A menininha, por sua vez, era espontânea; agia com típica infantilidade masculina, com trejeitos masculinos e vocábulos do mesmo modo. Para disfarçá-la, penso eu, da sociedade cheia de dedos, sua mãe colocara um laço rosa que se postava protuberante no topo de sua cabeça clara.
Por fim, sentada na frente do homem barba ruiva, estava a mãe-esposa. Seu rosto deixava explícito o quanto de dinheiro já investira em cremes e maquiagens de reboque, mas, ainda assim, olheiras desciam por debaixo de seus olhos pequenos, feito leques japoneses. Era corpulenta, não chegando a ser gorda. Sua roupa, também impecavelmente engomada, ornava com a cor do batom que fora pesadamente depositado em seus lábios crispos, e mais tarde seria impresso no copo de cristal.
Após a chegada de todos, o chefe da casa começou a oração. Seus olhos se fecharam forçadamente, para seguir o protocolo e ensinar aos outros como se fazia. O filho tirou seu chapeuzinho, e acompanhou os movimentos do mestre sem vontade alguma. Papai-botões-de-ouro cuspiu rapidamente palavras secas e desacreditadas e ao sinal do “Amém”, corpos despencaram nas cadeiras de mogno polido.
As crianças – com as mãos falsamente lavadas – davam chutinhos uma na outra por debaixo da toalha e a esposa-mãe com cara de quem nem comeu ainda e já não gostou, começou a servir a refeição.
Uma, duas garfadas, um gole de silêncio azedo... e um arroto. Todos olham; olhos de contestação, opressão e ao mesmo tempo indiferença, para a criança ao lado. A menininha com laço enfeitado na cabeça e dente podre solta uma lágrima, como que em resposta aos olhares compreendidos, e rapidamente todos voltam a atenção aos pratos. Sim, não precisam de explicações ou argumentos, a menina chorara... Tudo estava bem.O irmão da menininho, porém, era o único que compreendia. Sabia a revolta que crescia ao fazer-se próprio calar.E ah... Tanta coisa tinha ele a falar!
Se ao menos pudesse abrir um hiato na refeição (único momento do dia em que todos estavam ao menos fisicamente perto um dos outros) e dizer tudo que vinha se acumulando. Queria falar, desabrochar... “Saberia papai que gosto de flores? Flores são belas delicadas e sutis! Sutis, mas com uma presença incrível, capaz de colocar mulheres ao chão em suspiros sonhadores. Ah papai, queria ser uma flor; que exalasse cheiro doce e amadeirado, envolvente aos olhos, à boca e à mente...”, pensava o menino todas as noites ao redor da mesa que tudo ouvia.
Mamãe dos leques infindos queria também questionar. Questionava sua vida vazia de tricotar pensamentos descartados, de lavar roupa suja dentro do seu ser sem poder colocá-las no varal, pra fora da janela. E ah, como sentia falta do sol... Do sol a queimar sua carne flácida e intocada, inflamar-se de vida estelar. Sentia falta do toque, de amar aqueles olhos ruivos e magricelos, e do amor inexpressivo penetrando por todas as partes de seu corpo; sentia falta de aceitação...
A menininha, ainda que nova, também se comovia. Via como se o mundo não entendesse seu modo de ser; não gostava de laços e vestidos; achava-os meros acessórios que não adiantam a vida de ninguém, e que adornos dessa estirpe poderiam ser dispensados, uma vez que atrapalhavam na hora de brincar de pique. Quanto às flores, só gostava de seu irmão. E ela gritava para si “se um dia meu irmão for uma flor, eu poderei ser um cometa! O cometa mais ágil, brilhante e imponente de toda a galáxia! Sairei daqui, e não terei mais que usar laços ou tomar sopa de ervilhas... Odeio ervilhas, essas macilentas e verdolengas bolinhas. Cometas não precisam comer e ganham todas as competições de corrida! Quero ser veloz, quero sair daqui...”
A confusão se instalava alheiamente em cada um. Enquanto isso, goles a seco e mordidas no ar disfarçavam o que as almas não podiam mais. Até as batatas cozidas podiam sentir a tensidade, que chegava a inalar desespero.
Porém, por um segundo... Todos se olharam nos olhos. O cometa com laço na cabeça encarou seu irmão florido e perfumado; intimamente sorriram. A Mãe endireitou-se na cadeira, olhando a todos e finalmente aos olhinhos de ouro, que presenciava tudo com interna angústia.
Por que sua vida era assim, fechada e repressiva?, inconformava o capitão. Ele sentia que seus filhos sentiam medo do mesmo medo que sentia ele por sentir medo. Seu coração enjaulara-se em grades de ferro oxidado, e a chave se perdera entre as vísceras pretas do seu corpo. Queria poder pedir desculpas a seus amores pela metamorfose de sua alma... Queria brigar com ela por tê-lo transformado em um pedaço de carne branco e passivo, cujas remotas emoções permaneciam coladas em teu coro duro. Queria, queria tanta coisa... Porém calava. Sua vida estabilizada o inflava de insegurança para dizer o que realmente pretendia, e seu medo, advindos da infância e de vidas passadas de sentar-se em mesa muda, o aconselhava que o melhor era assim deixar.

Outro gole de tomate seco, uma mordida de suco laranja. Um último olhar de silenciosa aceitação.

...E nada (sempre e nunca) se fala; a atenção volta-se novamente para os pratos e escuta-se só o tilintar das vidas de porcelana batendo umas nas outras, esperando que a outra quebre e manche a toalha da sagrada comunhão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Da metalinguística emotiva.



Noite quente, lufadas de ar desconfortáveis... A mente divaga. Sento em frente à mesa surrada de marfim, encosto a cabeça sobre os pensamentos e desabafos espalhados por entre canetas e lembretes... E nada. Faço nada que esforce o corpo cansado, o rosto branco e suado após horas de trabalho obrigado.

Porém, perto de mim, percebo um caderno. O caderno mais velho, batido, usado e querido que possuo desde não me recordo mais. Ele me encara com suas folhas quase marrons; não possui mais capa e sua mola desponta para além dos dois extremos do material. Molas enferrujadas, vividas, fatigadas. Senti no momento carinho extraordinário por aquele singelo e enrustido pedaço de metal. Aproximei-me do mesmo e senti que tinha um cheiro... Cheirava a mim. Cheirava estafa, azedume. Cheiro de mola.
Levantei-me curiosa e, ao aproximar o pequeno caderno ao meu rosto, a imagem refletida – por um velho espelho apagado – foi nada menos que duas de mim.
Duas formas acabadas e amargas. Metal e humano, sem distinção entre os mesmos. Eu, tão matéria-morta, tão incapaz de expressar uma única sílaba, quiçá um mínimo grunhido. E a mola, parada ao meu lado, contemplando minha estupefata consternação.
O estalo veio num intervalo de tempo tão curto que as pernas vacilaram. Sentei na cadeira mofada, o suor escorrendo pelas bochechas, agora escarlates pelo fervor de minha consciência.
Minha alma quis falar. Os dedos ajudaram. Escrevi.
Há pessoas que nos acham meras molas: que adoramos ser contorcidos, enrolados, e nos pegam por entre os dedos fazendo brincadeiras de vai-e-vem. Vamos! Brinque mais um pouco! Diga que sou a mais bela das molas, que qualquer caderno gostaria de me ter como estrutura, que fichários, brochuras e outras molas morrem de ciúmes de mim. Faça minha mente redonda ir e voltar, ir e voltar, tão sem controle...
Mas que mãos são essas que zombam com criaturas tão bobas como as molas? Que alfinetam, deformam e as pressionam para que se sintam, ainda que conturbadas, excepcionais?
São mãos mal resolvidas. Mãos traumatizadas por terem cortado tantas vezes os dedos finos no papel, e que usam as feridas como bloqueio, e o bloqueio sangrento como desculpa para perder-se em vida de objetos apalpar simplesmente. Mãos que se entrelaçam uma na outra e não abrem novos livros, não lêem ou escrevem novas histórias, não vivem; mas estalam os dedos com imaturidade e inconsciência quando é hora de brincar com as molas.
Há dias que meu corpo elástico tem resistido. Estico-me e me encolho a cada palavra solta demarcada pelo movimento de suas escolhas. Enrijeço quando a brincadeira cansa, mas constantemente me vejo de novo como suporte para suas mãos descompromissadas... Quem me dera ser palavra, ser ato!
Quero ser a lira que desenlaça e embaraça a vida de alguém, quero mudar ambientes, mergulhar em romances misteriosos, e criar capítulos para minha própria vida borrada.
Não mais mola, caneta ou papel. Não mais prólogo.
Serei começo, meio e fim.
Serei seu clímax.