segunda-feira, 11 de julho de 2011



Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé - não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre.
(Caio F. Abreu)

domingo, 17 de abril de 2011

A ESPERA


As botas batidas, sujas de lama, o corpo caído, moído... os olhos miúdos depois do dia opressivo. Ao chegar em casa, a louça suja, o chão grudando, o calor infernal impedindo de respirar; o gato roçando entre as pernas, soltando seu esnobe felino por onde passa, entre pelos e miados preguiçosos. A geladeira queimada, a maçã podre, o leite azedo... Mais um fim de dia. Dia farto de clientes vorazes, de mamelucos andando pelas ruas e agredindo a moral alheia, dia de carimbos e grampeadores sem fim. De metas não cumpridas, de brigas em silêncio comigo mesma, de brigas ensurdecedoras com outras, com outros, com todos.

Mas eis que apertas a campanhia... eis que chega com teu perfume, me embriaga toda com tua vida cheia de tentar grudar na minha. E gruda, ai como gruda! Grudam-se os corpos cansados, os pensamentos que aqui e ali voavam sem sentido algum... Mas quando se juntam aos poros teus, formam melodia hipnotizante de um baixo qualquer tocado por dedos tímidos de um solitário. Ah, quando chegas tua boca com gosto de sal, teu olhar de menino perguntando sobre meu dia, teu hálito fresco, teu pescoço esguio; quando chegas com tua barba rala, crescendo falha e sorrateira no canto do canto do rosto, contornando com delicadeza o queixo quadrado, lindo; quando corres pra mim com tuas manchinhas vermelhas na pele clara, tão, tão charmosas! Ai, esqueço de tudo, esqueço de mim...

E me enlaças então com tuas mãos grossas, as veias azuladas pulsando ao encontro meu, e afagas, afagas os meus cabelos até eu me render à insanidade de tua companhia. Ignoro então as ações da bolsa, a globalização, o excesso de fast food, as ilhas de lixo, a violência no mundo, os pecados mundanos, a condição das estradas, o preço do sabonete, a fome, as desgraças naturais, o apartamento despencando, a saudade de casa, a saudade da família, a falta de água, a falta de dinheiro, a falta de música boa, a falta de tudo. Embala-me na tua fantasia e me perco nestes olhos pequenos e sonolentos, a me espreitar como se estivessem dormindo, sonhando um sonho bobo.

Nessas horas do dia em que as malésias do corpo não superam a excitação provinda da tua carne, do teu carma, da tua alma a chamar a minha para um enlace divino. Nessas horas em que apertas a campainha e acendes em mim o fogo da juventude; essas horas que fazemos planos distantes, prometemos coisas impossíveis de se cumprir (e rimos com a consciência disso, e prometemos denovo e denovo). Nessas horas que a transformação que provocas em minha vida atinge o ápice, e eu, em inocência de menina moça, gozo da tua presença com a certeza de que ela sempre estará perto da minha.

Não está.


domingo, 20 de março de 2011

Sol e Sal


Amigo, lembra-te daquele dia em que tomamos um café amargo, e o azedo da bebida escorregou por nossas línguas, fazendo uma mistura com sabor de infância?

E nossos corpos pequenos, ainda pequenos, se entrelaçaram num abraço de irmão, mas nos amamos feito feras famintas, e comemos e comemos o cordeiro há tanto tempo deixado de lado.
Lambuzamo-nos de carne maldita, arranhamos os temperos e as bocas, sentimos o cheiro da boa sujeira escorrendo pelos cabelos, abrindo os poros e deliciando a vida.
Tu te lembras disto, amigo? Do dia que nada prometia e acabou em profecia noturna, desejo soturno que se alastrou pelo fogo adormecido dentro do íntimo de cada qual.
Teus olhos negros queimavam em brasa, meus lábios ardiam e incendiavam a derme toda, tua pele arrepiada e atenta aos toques meus; tu me consumias como homem, com fome de menino assustado, mas seguro. Seguro de ti, seguro de mim, num aperto e aproximação que só os deuses conseguem ter.
E no fim da noite, o jorro do prazer já cessado, e nós já fatigados de saudar com ferocidade a alegria, deitamos feito bebês; não ligando para nada, a preocupação voltada simplesmente em abrandar as batidas do coração, tão frenéticas e harmônicas. Dormimos com o gosto adocicado e boêmio da noite, e tu, amigo, tão firme e tão meu, esvaiu-se em lembrança presente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

De fraldas à comida congelada.

Ah, que saudade de jorrar ideias que caem certeiras no lugar errado, com jeitinho, assim discretas!
Ah, esse corpo pequeno já fatigado por lavrar e lavrar, essas coisas que gente grande (de igual tamanho) faz, nao consegue parar pra pensar! Corre dali, anda acolá, senta, levanta e começa outra vez.
E a poesia por enquanto dorme, descansa da vida epilética que me dá, vez ou outra, tremeliques de exaustão. Se quero parar? ah, não!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Gestação

Eu vejo o dia subindo e pessoas amanhecendo em boca seca; eu respiro o ar orvalhado da manhã e cada átomo deste corpo eletrificado pelo susto do dia borbulha com cor de sangue. Mais um dia. Ah, Que delícia o prazer de ser. Ser com, ser para, ser só pela existência do verbo; ser e estar para a vida como a vida está para qual.


Sem mais.

Gozar com prazer as novidades caseiras, as notícias mundanas; vibrar e gozar. Lamber o gozo a cada jato de novas expectativas, mudanças, correrias.

Como a vida me esbanja e desgasta! Os dias me arranham, as noites me arrasam... As noites por si vêm roubar o fulgor de alegria latente, trazendo o velho saudosismo exagerado para a convivência de.

O vinho barato confunde a cabeça de garotas com prazer confundido por dias confusos. Dias auto-volúveis, no sentido mais intrínseco da palavra (que não existe).

Estou cansada e feliz; embriagada e excitada pelo nada que se abre à minha frente; como diria a companheira de conversas por dentro de,é tempo de colher morangos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

BROTHERS (verdade extraída #2)



I don't know who said 'only the dead have seen the end of war'. I have seen the end of war. The question is: can I live again?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

GRITOS DE GEORGIANA.


Quem diria que numa tarde tão bela, tão cor de vento, minha vida se esvaia sem eu perceber... Quem diria que o desamor provocaria em mim tamanho ódio humano? Eu que era menina, eu que nem sabia amar... Eu, tão pura de brincar de roda, tão doce de apostar corrida, eu... Que tinha um mundo a desvendar entre cortejos e fascínios! Num simples piscar de inocência e amarrar de acordos perdi no meio da dança a única coisa que me era por direito assim que vim ao Mundo: liberdade. Como pude? Como puderam? Como...
Pessoas que eu desde sempre admirara! Agora mostravam a verdadeira fronte, a máscara esmagada na grama verde. Seres escoriados, desalmados, frios como o gelo da noite, rudes como a erva daninha que se alastra e ninguém percebe seu veneno! Que traíram minh’alma como Lúcifer traíra Jesus, que me escarraram na fuça a devassidão de um complô onde eu era a marionete tola, a marionete infeliz, sem escolha.
Agora não entendo mais nada; tudo se tornou um imenso borrão. Como uma tempestade que lava da terra os nutrientes mais raros e deixa cheiro de vazio molhado. Como as notas rápidas e embaralhadas de um Allegro, as quais não decifram nada e deixam tão somente o falso sentimento de felicidade.
Mataram-me em tudo... Tiraram o brilho que eu via na Lua, roubaram-me o amor que sentia e não sabia... Roubaram e eu não soube! O que tenho eu agora? O que me resta? O que...
Apego-me agora aos pequenos feixes de luz que adentram a janela de meu abrigo encadeado; repouso no colo absoluto dos filhos que gerei o pouco que resta de mim mesma, o pouco da graça que tinha em um tempo que não lembro mais... Filhos gerados com o líquido do mais puro desvario, da maior obrigação e falsidade, mas ainda assim... Meus.
Enxergo seus pequenos cachos como cordas que me levantam para encarar o dia; em suas incompreensíveis palavrinhas ouço conselhos que me evitam clamar injúrias verdadeiras na presença de seu fétido pai. Cada mãozinha com formato de nuvem aguça-me os sentidos de mãe e conforta minhas dores, conforta meu desespero, minha grossa perdição.
Quem sou eu? Alguém pode me dizer? Alguém pode me apontar? Alguém...
E o buraco sobrado é paciência. Paciência em levar a vida de outros nos ombros meus; paciência em mostrar a face recalcada como se a mesma fosse exemplo a próximas gerações. Paciência para deglutir risos, comentários e absurdos numa só noite, com uma boa faixa de maquiagem para ajudar na descida.
Em suma? Acredito que perdi a essência da vida e não irei encontrá-la nessa mesma; não nesse corpo, não nessa casa. Não pretendo procurar por ora outras distrações que me façam sorrir, não possuo mais a virtuosidade para tamanha sangrenta empreitada (sim, também na roubaram).
O resto? O resto é nada...