sexta-feira, 31 de maio de 2013

Chorinho bom

Está frio, muito frio. É um costume dessa cidade, gelar as ruas, apressar os carros e confundir as pessoas. E eu, miniatura dentro da maquete, tenho uma porção de coisas a fazer que me disseram que eu deveria fazer por que é assim que as coisas são; e assim elas disseram pois alguém as disse que assim elas deveriam dizer, porque é assim que as coisas são. Trabalhar pagar contas lavar a louça estocar comida receber ordens reprimir o sono lavar as partes se alimentar limpar a casa rolar na cama ver tv escovar os dentes colocar roupas tomar sol acreditar nas pessoas não ter filhos antes da hora e tantas outras coisas que a vontade mais íntima que está coladinha comigo debaixo dos panos se encolhe e fica com medo de sair. Minha vontade vermelha é você. Você batendo na minha porta fria neste exato momento, com a pele clara, os olhinhos doces por debaixo dos óculos, o casaco preto escondendo o corpo rijo. Encostar minha boca na sua e sentir seu gosto de menta, seu gosto fresco e novo, e juntar minha saliva na sua selando a aproximação. Te arrastar escada acima, te acomodar dentro da casa e me acostumar com essa imagem como se ela fosse um retrato antigo; como se você sempre estivesse ali,  uma escultura deitada na cama que se move, me pega pela cintura e me faz cócegas.

E então, se essa vontade tivesse vez, se as obrigações não me gritassem urgentes por serem consumidas, nossos braços e pernas se enrolariam, confundindo as calças e os sapatos; e seria unha, carne e cabelo pegando, gemendo, amarrando, lambendo, batendo, arranhando, beijando e vivendo numa comunhão exata. A camisa voaria pra perto da janela que dá para a sacada, as meias emboladas nos lençóis, meus cabelos embolados nos seus dedos, a língua molhada fazendo caminhos no corpo todo, arrepiando os ossos e tirando suspiros das paredes. E a gente iria, pouco a pouco, na paz e na serenidade de sermos o que somos, descobrindo novas curvas em cada um; novas pintas, novos cheiros, novos sabores e novos ritmos emanando de todos os lugares de nós. Pularíamos todos os carnavais que há entre as coxas, dançando o gozo e rodopiando a vida até dar tontura boa. E eu iria, pouco a pouco, apagando os carros os livros as folhas os ares as vezes e todas as vezes que eu quis você e ter você não deu. Das vezes que a vontade se encolheu.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SAMBINHA

 

Só queria comentar, assim,
 já no resbalo do fim de hoje,
que suas covinhas estão
me guiando as horas do dia.
 
 E que seu jeito bobinho,
assim, sem jeito e faceiro,
 faz meus pelos rirem e
minha mente descansar.
 
 Por que, por que será? Assim, bem de repente?
 Na verdade, bem verdadeira, não me importa a razão tanto assim.
 
Amanhã o galo toca,
 eu deixo minha cama,
pulo em minhas botas,
e vou te encontrar.

 
E aí que o dia começa,
 as covinhas a tirintar.
E aí meu riso se abre, assim,
 que nem agora.
 
 Por que será, por que isso agora?
Verdade bem verdadeira, eu não quero nem pensar.
Só quero curtir a demora do tanto esperar,
Até que chegue a hora das covinhas me tocar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Quando danço


Me toca lá no fundo a situação de eu ser tão íntima de mim quando a arte me vem falar no ouvido e tão afrouxada e inconsequente quando os instintos me batem mais  adentro. Aquilo que a gente chama de vontade própria se perde constantemente; não pelo fato de ela não existir e sim pelo fato dela se tornar tão latente e tão vividamente presente dentro do meu ser que ela se estabelece como vontade própria de si mesmo e acaba me perdendo por inteira. Talvez isso aconteça porque estou cada vez mais consciente da minha condição de árbitra sobre a minha própria vida... O que me confunde, porque se a dádiva que os céus nos espichou na cara e nas entranhas é a de termos o livre arbítrio para decidir sobre as coisas, meu ser deveria obrigatoriamente me deixar livre de mim, para que eu tomasse as minhas próprias escolhas, sem que lá dentro de mim o apito estivesse soando quando cometo alguma falta. Na verdade Deus é um cara muito esperto, porque Ele me deu o livre-arbítrio mascarado e colocou por dentro dos meus ossos, da minha boca e das minhas crenças a tal da Consciência: aquele zumbido que parece sair dos travesseiros e fica tiritando pelos nossos cabelos as coisas das quais fizemos e Ela desaprova. A Consciência tem vontade própria, tem o livre arbítrio de Deus para me julgar e barrar as minhas outras vontades, que por serem tão grandes assumem própria vontade-própria e me explodem em absorta confusão. Mas estou fugindo do ponto aonde queria chegar (essa história de vontades e não vontades me rende outro falatório a parte deste): O que eu quero dizer, no final das contas, é que quando estou em contato com a arte meu ser se mergulha em bálsamo e todos os seres inquisitivos que moram dentro de mim adormecem. É quando eu consigo, por frações de segundo, olhar pra dentro, bem dentro de mim e sentir a pasmicidade do reencontro, depois de sentir tanta saudade de mim. E aí meu espírito pula feito criança, quer rebolar, saltitar, fazer-se visto! Já que na maior parte do tempo ele se esconde frouxinho atrás de tantas vontades querendo se valer por cima das outras. Não que essas outras vontades não sejam boas, são sim; elas rumam minha vida de um jeito sinuoso e brincalhão que no fundo eu sei que gosto de ser. Mas a brancura da minha existência, a razão de eu estar dentro de mim só se faz altiva quando em contato com a arte, essa que consegue ser tão perspicaz e que ninguém consegue tangê-la de fato; e ela brinca comigo e se esconde por detrás dos meus caminhos de uma maneira que me dá cócegas de inquietação. É nessas horas que meu corpo se alerta às dicas dela e tento pegar em seus cabelos; são nesses pequenos surtos de lucidez (a que os loucos chamariam de insanidade ou abobrinhas) que a minha espinha se eriça e eu consigo falar pra mim mesma o que acontece dentro de mim... Até o momento em que minha mente se cansa de segurar a Consciência no sono pesado e ela vem algazarreando tudo de novo de cima abaixo. Aí eu me afrouxo novamente e me deixo levar pelos dias e pela contagem tosca que a minha Consciência faz dos meus ganhos e acertos, dos meus fracassos e feitiços, tudo sempre metodicamente planejado e escancaradamente anunciado pra mim mesma diariamente, sem que eu tenha tempo de pensar por vontade própria se estou certa ou não. Agora, por exemplo, leio esse texto e me parecem abobrinhas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ao pé do ouvido

Meu bem, eu já estou cansada de olhar pros seus olhos caídos e tentar pela última vez (e dessa vez i mean it) ser doce contigo; o relógio vai cambalhotando pelos dias e eu já não tenho as dores e os truques suficientes para me fingir feliz perto da sua presença que não me apraz. Sabe, querido, as ruas e rugas correm pela gente cheia de cabelos negros iguais aos seus, de olhos amendoados e bobamente felizes iguais aos seus, que me fitam agora, perplexos. Você não é o único, doçura, de corpinho maroto e bundinha arrebitada, você não é o único rei da parada (estou cansada de reis!); por isso não pense que teu copo de cerveja e tua saliva colada nos meus ouvidos causam algum grande efeito que me mantenha calada e estupefaça aos teus encantos mesmícios. Hoje em dia eu só tenho uma condição, piá: que você vire sua rotina every now and then e cheire o meu cabelo; que você me conte sobre o seu dia sem segundas intenções, e que pergunte sobre o meu com interesse de criança pequena. Que, às vezes, saiamos pra carnavalizar os gestos, verbalizar na rua coisas que engravatados não entendem; que derrames em mim no fim de semana o vinho sobre o corpo, e que me tomes feito bebida sagrada. Que me tomes com respeito e gozo. Que queiras mais que chupar minha cute feito lollipop, si? Porque isso, meu bem, não transcende. Isso não vibra nem surpreende; isso apenas cumpre o papel animalesco de sermos o que somos: Vorazes. O que nos falta é aquilo que me foge da memória, por não ter batido na minha porta há tanto tempo. E é isso que eu quebro, boy, trincos quebrados, perder a fechadura. Quero que enxugue a podridão dos quartos e das salas. E que seja intenso.
Portanto, só pra resumir nossa conversa, já que seus olhinhos estão tão exprimidos pra tentar entender o que eu te digo que chega a dar dó, se não puder me dar o que eu quero, faça ao menos a gentileza de cair fora. Se afaste, guy.  Afaste-se com seus dedinhos faceiros e conversas (a)fiadas; sai pra lá com seus vocativos carinhosos, que te evitam o desprazer de errar meu nome. Se afaste com elegância, não deixe marcas de barro molhado sobre a casa; não saia arrastando correntes ou parafraseando discursos românticos de livretos que lestes pro vestibular, eu os conheço. Cresça, meu bem. Deixe a barba e o caráter vir, que junto vem a doçura, a magnitude do ser e aquela responsa que os adultos sempre nos disseram ter. Do contrário, feche a porta que não temos mais porque conversar, piá. Goodbye.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

APEGO



Espera!

Pára só um pouco e fica aí mesmo onde está agora.

Você está percebendo? O som, as luzes, o cheiro... Como não? Eu consigo quase ver as cores do som que teu corpo faz quando está perto do meu. Como não ouve nada? Escuta, bem de perto... Sente aqui o cheiro das minhas palavras, toca as formas e os cabelos, beija meu nariz, que talvez você sinta algo... Não é possível que só eu sinta a alquimia embolada em nossas pernas; não posso eu ser a única a ouvir nosso querido e próximo Dionísio nos chamando para a celebração eterna das carnes e do sangue!

Escuta... Ouviu? Pega na minha mão, vê como ela se encaixa tão bem na sua, tão dispares e harmoniosas; eu sempre gostei da sensação do charme dentro do desajeito... Até meus ossos fazem barulhos esquisitos quando estão rígidos, apaixonados pelos seus dedos! E meus pêlos, os pêlos do corpo todo se arrepiam com o suor teu; não vê? Ariadne está perto de nós enrolando-nos em fios de linho, nos salvando do labirinto do tédio. Sente o vinho molhando nossos olhos, sente o gosto da uva minha que passa pra língua tua. Ouve, ouve os gemidos que saem de dentro de mim, de dentro de mim tão vergonhosos procurando desesperadamente pelos ouvidos teus, para que não se percam.

Ainda nada? Por Deus! Chega mais perto, então... Sim, ainda mais perto do que já estamos. Vem, pulsa comigo! Que se confundam os braços, os rostos, as nádegas e faringes; que se confundam as almas. Vamos, morda os ventos que entram pela janela, e assopre-os no meu pescoço, eriçando a minha espinha! Derreta o mundo a tua volta, ascenda uma vela perto de nós, sente a cera nos grudando, nos unificando e inundando o mundo de Mundo! Percebe agora?... Calma, estou quase vendo a linha.

E agora?

... E agora?

Agora sim. Agora nós.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Canção para entender (meu) mundo

SOZINHA, no mundo eu


danço. Me compassam

as Rimas,

Me aliviam

os Versos

Me engrandecem a Alma.



Me tonteiam os pobres

Me esclarecem os Poetas.



MUNDO, Me acompanha

nesta Lira! Tira os sapatos,

e roda comigo ao som

do Delírio.

Me concordam os Loucos,

Me acordam os Músicos,


Me acompanham os Solos,

Me entende a Arte, SOZINHA.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

VENENO E MEL

Estou pagando pra você me ouvir, então senta e escuta.

Senta que a história é grande e a roda não para de girar, aguarda só um pouco que eu só preciso acender a luz e esclarecer as ideias de dentro de mim.

Não, usa o divã você mesmo, eu não preciso deitar o corpo pra descansar a mente, não adianta de qualquer jeito... Dizem que os fantasmas aparecem no sono, não é mesmo? Os meus estão tão acostumados com o ambiente que me perseguem assim que levanto. Não, não quero que você levante, só quero que tire um pouco os fones de ouvido, desligue sua música fajuta e dê atenção ao meu organismo que grita por soluções verbais. Carnais, quem sabe, já não sei mais.

O fato é que estou em um transe profundo já não sei há quantos anos, uma espécie de reação alérgica, que vomita e bate e explode tudo aquilo que um dia pode-se taxar de amor, de um quase-afeto ou até mesmo de um carinho dificilmente palpável. O fato é que antes eu não sabia expressar as coisas coloridas que borbulhavam por dentro de mim... E agora eu não sei sentir. E essa fraqueza lateja em mim como aquele sexo meio amargo, deixado assim de lado. Essa coisa jogada de fora pra dentro, empurrada sem jeito e seca. E eu fico aqui, me sentindo como puta rejeitada, com gosto e cheiro de porra vazia na boca, porque aquele colorido, aquele colorido que eu sentia no estômago, sabe bem? Aquilo não existe mais. Nunca soube dizer o que era na verdade, mas tinha por mim que era melhor que qualquer droga, qualquer vício material que dos fracos se apossam; eu tinha a folia mais poderosa bem dentro de mim, assim de graça, que podia ser ativada a qualquer momento, e agia como bomba nuclear. É, eu sei que bombas são perigosas; mas eu gostava de arriscar. Porque valia a pena perder uma perna, o juízo ou a razão, porque eu era besta e criança mas eu tinha a inocência aflorada, e isso era combustível praquilo que os mortais chamam de felicidade. E de quem é a culpa, neném? Sei lá, a culpa é do presente, da consequência de todas essas voltas em parquinhos escrotos, que me deixaram tonta e me fizeram perder o sentido. A culpa é dessa marola salgada que não me deixar enxergar o sol, que me joga pra lá e pra cá e mostra que os ventos são brandos. Não são não, tá me ouvindo? Aqui sempre venta, e já vou avisando que a areia corta os olhos. Ou talvez... É, você tem razão; talvez a culpa é minha. Não, eu sei que você não disse nada, vocês ouvintes de merda nunca dizem nada mesmo; o fato é que já não tenho coragem de alugar meus amigos em botecos e estragar o prazer azul com uma garrafa de problemas azedos. Mas sim, a culpa é minha, desse pequeno espectro que criou anticorpos pra tudo aquilo que possa fazer bem a uma pessoa... E a medicina não resolve mais, o mantra, a umbanda, o candomblé, o judaísmo, budismo, a crença da puta-que-o-pariu-meu-Deus-me-acuda não serve pra isso tipo de caso. Porque na verdade, meu bem, Deus é supremo demais para que eu o perturbe com problemas que simplesmente não existem. E eu me culpo a pensar que meus pensamentos cheguem até Ele, sinto vergonha por preocupa-Lo com tamanhas cretinices, e entoar os cânticos angelicais pedindo asinhas pra sair daqui. Mas a verdade é uma chibata...E o sangue de tudo isso é que as pessoas me enojam facilmente, e as que me entorpecem feito poesia, meu corpo simplesmente rejeita... e o lixo, todo o lixo possível do mundo gruda no meu pé feito chiclete mascado. Gruda e não sai, e não sai de jeito nenhum, vê só? Então andam comigo pelas ruas escuras todos os cafetões, traficantes, todos os bombadinhos filhinhos de papai que não se enxergam, todos os ignorantes da terra, todos os machistas retrógados desgraçados, toda a massa fedorenta de jovenzinhos burros que passam o dia a falar mal do cú dos outros, quando o seu é mais arrombado que o caminho pra China. Ei, não levanta! Eu te paguei, é pra você ouvir tudo que eu tenho pra cuspir; não importa se te atingir na cara ou não, você pegou diplominha pra isso, não foi?O fato é que estou inerte nesse esquema de meias transas há tanto tempo, que quero fazer a roda parar. Estou farta de unhas imundas e cafés frios; mas toda vez que a vida me lança um belo par de olhos, cabeça aberta e corpo quente, meu eu-amargo repele, e o prazer vai embora... E não volta mais.

E agora... Agora eu pago pessoas que não conheço pra ouvirem meus problemas de merda, enquanto elas fingem que ouvem e pensam no enlatado do jantar. Agora eu falo com você e nem sei no que isso vai ajudar, porque docinho, a roda nunca para não é mesmo? E as crianças só ficam nos olhando lá de cima; olham, e riem por sermos tão boçais, tentando nos equilibrar em salto alto e passar batom na cara. Agora nós que somos os palhaços, percebe? Incapazes sequer de viver numa cordinha bamba, a meio palmo do nariz. Incapazes de fazer-se rir com suas próprias pilhérias e patacoadas. Haha, agora entendo porque palhaços assustam os inocentes! Mas bem, vejo que você não para de olhar o relógio e isso me irrita profundamente; pode voltar pro seu cubículo obscuro, e lamuriar suas próprias injúrias pra parede da cozinha. Afinal, o parque está aberto, não é doutorinha? Ou melhor, se estiver muito entediada na sua profissão de engolir lontras, compra um ticket pro circo da frente e entra lá pra assistir a surra nos bichos... A dor é agridoce.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sanatório


Eu vivo em um mundo onde não há mais respeito, não há sensibilidade ou afeto verdadeiro. As pessoas se esbarram, se abraçam e se fodem loucamente para sentir um pouco mais vivas dentro de si mesmas, num frenesi sem sucesso. O desamor emana pelas narinas dos desumanos, a falsidade lava as ruas e as deixa com o cheiro limpo da podridão. A Podridão não é novidade por aqui.
Aqui não existe carinho. Aqui há animais que mordem uns aos outros durante a noite, se tocam sem pedir permissão, se beijam e se fingem estar amando, e a pretensão do fingimento no dia seguinte varre as memórias, e não se lembra nomes, não se lembra números, não se lembra nada. Aqui não há aproximação.
Eu vivo em um mundo onde a frieza é passada de pai pra filho, ventre a ventre. Onde os rasgos da vida particular não interessam a ninguém, onde copos (e corpos) são quebrados em praça pública e depois ninguém se importa, porque a embriaguez generalizada dos bichos justifica qualquer ação – ou desação – insana.
Eu vivo em um mundo que está me consumindo. Como zumbis que me tiram aos poucos os pedaços de dignidade e sensatez, estou ficando como um deles. Porque aqui, pessoas como eu são tratadas como loucos, como leprosos sujos que não podem chegar mais perto, porque humanidade contagia. Aqui levamos dardos enormes de decepção na veia, e aos poucos ficamos sedados com o som da solidão, e a droga toda sangra por dentro, e nos faz ver que no fim de tudo, é melhor – ou cômodo – se juntar a eles.
Eu vivo num mundo que está desistindo de si mesmo, em um mundo que sente a falta da elevação do espírito, da penetração do amor na alma, mas não se deixa admitir, por orgulho e estupidez... Eu vivo num mundo de surdos, cegos e pobres, que retalham a pele dos que ainda vivem, e gozam do prazer vazio de invadir o espaço alheio, e vão embora depois sem a menor satisfação. Eu vivo no mundo do estupro, eu vivo sendo assaltada por clandestinos que se fingem ser como eu.
Aqui ninguém segura a minha mão, aqui ninguém me abraça porque quer. Aqui me sufocam com os braços escuros num mar de mentiras. Aqui o ar poluído me afoga em mim mesma.
Aqui eu deixo minhas últimas súplicas,aqui eu derramo os últimos goles de lucidez. Aqui eu me agarro aos poucos que restam.

segunda-feira, 11 de julho de 2011



Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé - não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre.
(Caio F. Abreu)

domingo, 17 de abril de 2011

A ESPERA


As botas batidas, sujas de lama, o corpo caído, moído... os olhos miúdos depois do dia opressivo. Ao chegar em casa, a louça suja, o chão grudando, o calor infernal impedindo de respirar; o gato roçando entre as pernas, soltando seu esnobe felino por onde passa, entre pelos e miados preguiçosos. A geladeira queimada, a maçã podre, o leite azedo... Mais um fim de dia. Dia farto de clientes vorazes, de mamelucos andando pelas ruas e agredindo a moral alheia, dia de carimbos e grampeadores sem fim. De metas não cumpridas, de brigas em silêncio comigo mesma, de brigas ensurdecedoras com outras, com outros, com todos.

Mas eis que apertas a campanhia... eis que chega com teu perfume, me embriaga toda com tua vida cheia de tentar grudar na minha. E gruda, ai como gruda! Grudam-se os corpos cansados, os pensamentos que aqui e ali voavam sem sentido algum... Mas quando se juntam aos poros teus, formam melodia hipnotizante de um baixo qualquer tocado por dedos tímidos de um solitário. Ah, quando chegas tua boca com gosto de sal, teu olhar de menino perguntando sobre meu dia, teu hálito fresco, teu pescoço esguio; quando chegas com tua barba rala, crescendo falha e sorrateira no canto do canto do rosto, contornando com delicadeza o queixo quadrado, lindo; quando corres pra mim com tuas manchinhas vermelhas na pele clara, tão, tão charmosas! Ai, esqueço de tudo, esqueço de mim...

E me enlaças então com tuas mãos grossas, as veias azuladas pulsando ao encontro meu, e afagas, afagas os meus cabelos até eu me render à insanidade de tua companhia. Ignoro então as ações da bolsa, a globalização, o excesso de fast food, as ilhas de lixo, a violência no mundo, os pecados mundanos, a condição das estradas, o preço do sabonete, a fome, as desgraças naturais, o apartamento despencando, a saudade de casa, a saudade da família, a falta de água, a falta de dinheiro, a falta de música boa, a falta de tudo. Embala-me na tua fantasia e me perco nestes olhos pequenos e sonolentos, a me espreitar como se estivessem dormindo, sonhando um sonho bobo.

Nessas horas do dia em que as malésias do corpo não superam a excitação provinda da tua carne, do teu carma, da tua alma a chamar a minha para um enlace divino. Nessas horas em que apertas a campainha e acendes em mim o fogo da juventude; essas horas que fazemos planos distantes, prometemos coisas impossíveis de se cumprir (e rimos com a consciência disso, e prometemos denovo e denovo). Nessas horas que a transformação que provocas em minha vida atinge o ápice, e eu, em inocência de menina moça, gozo da tua presença com a certeza de que ela sempre estará perto da minha.

Não está.


domingo, 20 de março de 2011

Sol e Sal


Amigo, lembra-te daquele dia em que tomamos um café amargo, e o azedo da bebida escorregou por nossas línguas, fazendo uma mistura com sabor de infância?

E nossos corpos pequenos, ainda pequenos, se entrelaçaram num abraço de irmão, mas nos amamos feito feras famintas, e comemos e comemos o cordeiro há tanto tempo deixado de lado.
Lambuzamo-nos de carne maldita, arranhamos os temperos e as bocas, sentimos o cheiro da boa sujeira escorrendo pelos cabelos, abrindo os poros e deliciando a vida.
Tu te lembras disto, amigo? Do dia que nada prometia e acabou em profecia noturna, desejo soturno que se alastrou pelo fogo adormecido dentro do íntimo de cada qual.
Teus olhos negros queimavam em brasa, meus lábios ardiam e incendiavam a derme toda, tua pele arrepiada e atenta aos toques meus; tu me consumias como homem, com fome de menino assustado, mas seguro. Seguro de ti, seguro de mim, num aperto e aproximação que só os deuses conseguem ter.
E no fim da noite, o jorro do prazer já cessado, e nós já fatigados de saudar com ferocidade a alegria, deitamos feito bebês; não ligando para nada, a preocupação voltada simplesmente em abrandar as batidas do coração, tão frenéticas e harmônicas. Dormimos com o gosto adocicado e boêmio da noite, e tu, amigo, tão firme e tão meu, esvaiu-se em lembrança presente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

De fraldas à comida congelada.

Ah, que saudade de jorrar ideias que caem certeiras no lugar errado, com jeitinho, assim discretas!
Ah, esse corpo pequeno já fatigado por lavrar e lavrar, essas coisas que gente grande (de igual tamanho) faz, nao consegue parar pra pensar! Corre dali, anda acolá, senta, levanta e começa outra vez.
E a poesia por enquanto dorme, descansa da vida epilética que me dá, vez ou outra, tremeliques de exaustão. Se quero parar? ah, não!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Gestação

Eu vejo o dia subindo e pessoas amanhecendo em boca seca; eu respiro o ar orvalhado da manhã e cada átomo deste corpo eletrificado pelo susto do dia borbulha com cor de sangue. Mais um dia. Ah, Que delícia o prazer de ser. Ser com, ser para, ser só pela existência do verbo; ser e estar para a vida como a vida está para qual.


Sem mais.

Gozar com prazer as novidades caseiras, as notícias mundanas; vibrar e gozar. Lamber o gozo a cada jato de novas expectativas, mudanças, correrias.

Como a vida me esbanja e desgasta! Os dias me arranham, as noites me arrasam... As noites por si vêm roubar o fulgor de alegria latente, trazendo o velho saudosismo exagerado para a convivência de.

O vinho barato confunde a cabeça de garotas com prazer confundido por dias confusos. Dias auto-volúveis, no sentido mais intrínseco da palavra (que não existe).

Estou cansada e feliz; embriagada e excitada pelo nada que se abre à minha frente; como diria a companheira de conversas por dentro de,é tempo de colher morangos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

BROTHERS (verdade extraída #2)



I don't know who said 'only the dead have seen the end of war'. I have seen the end of war. The question is: can I live again?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

GRITOS DE GEORGIANA.


Quem diria que numa tarde tão bela, tão cor de vento, minha vida se esvaia sem eu perceber... Quem diria que o desamor provocaria em mim tamanho ódio humano? Eu que era menina, eu que nem sabia amar... Eu, tão pura de brincar de roda, tão doce de apostar corrida, eu... Que tinha um mundo a desvendar entre cortejos e fascínios! Num simples piscar de inocência e amarrar de acordos perdi no meio da dança a única coisa que me era por direito assim que vim ao Mundo: liberdade. Como pude? Como puderam? Como...
Pessoas que eu desde sempre admirara! Agora mostravam a verdadeira fronte, a máscara esmagada na grama verde. Seres escoriados, desalmados, frios como o gelo da noite, rudes como a erva daninha que se alastra e ninguém percebe seu veneno! Que traíram minh’alma como Lúcifer traíra Jesus, que me escarraram na fuça a devassidão de um complô onde eu era a marionete tola, a marionete infeliz, sem escolha.
Agora não entendo mais nada; tudo se tornou um imenso borrão. Como uma tempestade que lava da terra os nutrientes mais raros e deixa cheiro de vazio molhado. Como as notas rápidas e embaralhadas de um Allegro, as quais não decifram nada e deixam tão somente o falso sentimento de felicidade.
Mataram-me em tudo... Tiraram o brilho que eu via na Lua, roubaram-me o amor que sentia e não sabia... Roubaram e eu não soube! O que tenho eu agora? O que me resta? O que...
Apego-me agora aos pequenos feixes de luz que adentram a janela de meu abrigo encadeado; repouso no colo absoluto dos filhos que gerei o pouco que resta de mim mesma, o pouco da graça que tinha em um tempo que não lembro mais... Filhos gerados com o líquido do mais puro desvario, da maior obrigação e falsidade, mas ainda assim... Meus.
Enxergo seus pequenos cachos como cordas que me levantam para encarar o dia; em suas incompreensíveis palavrinhas ouço conselhos que me evitam clamar injúrias verdadeiras na presença de seu fétido pai. Cada mãozinha com formato de nuvem aguça-me os sentidos de mãe e conforta minhas dores, conforta meu desespero, minha grossa perdição.
Quem sou eu? Alguém pode me dizer? Alguém pode me apontar? Alguém...
E o buraco sobrado é paciência. Paciência em levar a vida de outros nos ombros meus; paciência em mostrar a face recalcada como se a mesma fosse exemplo a próximas gerações. Paciência para deglutir risos, comentários e absurdos numa só noite, com uma boa faixa de maquiagem para ajudar na descida.
Em suma? Acredito que perdi a essência da vida e não irei encontrá-la nessa mesma; não nesse corpo, não nessa casa. Não pretendo procurar por ora outras distrações que me façam sorrir, não possuo mais a virtuosidade para tamanha sangrenta empreitada (sim, também na roubaram).
O resto? O resto é nada...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Espanto de Heathcliff.


Ele era franzino, descompassado e infeliz; em sua vida nada tinha lhe dado motivo de abrir um sorriso cheio de dentes, então o que fizera até o presente momento fora cuspir aqui e ali enunciados pobres quando alguém lhe dirigia à palavra. Mas o que agora se postava à sua frente era parecido com as belas e cruéis criaturas que apareciam em seus sonhos. Assim que seus olhinhos secos cruzaram os ávidos olhares da estranha com cabelos castanhos, uma mistura de Dominação e Desejo de guerra infiltrou-lhe os pulmões e o coração. Uma força que até então jamais tomara conta daquele corpo moído... algo como Amor.
Mas não era Amor... Era muito mais. Aquilo que agora tomava conta de seus Instintos animalescos era sobrenatural, desumano, chegando a ser maldito de tão forte e implacável. Ele grunhiu para a criatura umas poucas e embaraçadas palavras sem sentido, e ah! Ela riu... Um riso de derreter montanhas, de desafiar o demônio e crer em vida após a Morte.
No mesmo instante ele obteve consciência de seu estado semi-possuído pela estonteante pessoa que ali jazia; no mesmo instante, mediu a intensidade do Perigo que se aproximava. No mesmo instante, aceitou o Perigo de peitos rasgados e deixou-se levar pelos suspiros doces e os obscuros encantos da doce Sina.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

HM


Dias atrás você apareceu nos meus sonhos novamente. Minha única vontade era poder sentir a ausência de teus suspiros enfraquecendo-me os ossos; mas tua força sobre mim é algo como a Lua que orbita em volta de tudo, transformando tudo, segurando tudo. Todos as dores, os fracassos, os amores, vomitam em minha cara e escancaram-me o passado. E a ferida nunca sara, nunca seca, sempre chora.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

sobre maconhices racionais


Subitamente as coisas no mundo começam a girar; um abismo se enche de água e vira oceano, porções terrenas são encobertas por encostas verdes, pradarias infinitas e a natureza se goza com prazeres infinitos de enfeitar o mundo.
Aos poucos, determinados locais terrestres são habitados de corações pulsantes, falantes e inquietos; ávidos por tirar uma lasquinha da maravilha que se posta à frente de seus olhos venosos; corações desconhecidos se aproximam para fazer os primeiros contatos; um deles é o meu. O outro, seu.
Dois corpos extensos, densos, opostos, que tentam se expelir mas no fundo sabem que tudo acontece de forma reversa.
Se você fugir, te acham. Se você correr, te alcançam. Se você chorar, te amam.
Há meses eu luto contra marés furiosas, e tudo o que tenho é um pequeno remo, já roído por ratos e velho na idade; na verdade ele não ajuda em coisa alguma. Há meses que vago pelos 7 cantos do abismo líquido esperando encontrar alguma garrafa cujo interior guardasse mensagem valiosa, que me abrisse a mente e clareasse os pensamentos.
Eis minhas conclusões depois de tanto tempo:
Não existem garrafas perdidas por aí; ninguém perde o precioso tempo de girar e girar escrevendo mensagens e postando-as em garrafas de rum. Suas dúvidas são suas e somente suas. Lide você mesmo com seus fracassos e demônios, ninguém fará o trabalho sujo por você.
Não fique perdendo tempo também navegando pra longe da ilha. Não use remos baratos porque eles nunca sustentam uma opinião! As ondas sempre acabam te deixando no mesmo lugar, afirmando que o destino que te escolhe, e não o contrário.
Sinta fervorosamente o gozo que a vida joga na tua cara; do contrário, você só é mais um músculo sem graça batendo pra manter um corpo qualquer – vegetativo - em pé.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

the last kiss ( verdade extraída #1)



- I love her, Stephen. Now I know I love her more than I've ever loved anyone else.

- Stop talking about love. Every asshole in the world says he loves somebody. It means nothing.

- But it's the truth.

- Still doesn't mean anything. What you feel only matters to you. It's what you do to the people you say you love that matters. It's the only thing that counts.

sábado, 16 de outubro de 2010

me x icanismos

Estou tão apaixonada por você!
As paredes já cansaram de ouvir lamúrias do amor enrustido,
as músicas ficaram roucas de tanto fazer turnê. Está na hora de gritar aos quatro cantos - e por que não todos os outros - do mundo
 que, ai! Como me apaixono por você.