quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Mesa Farta

Mais uma noite de jantar em família. Corpos miúdos, obesos e ora alongados circundam a mesa forrada com pano listrado, arrebatada de comida, copos e mentiras.
O pai, um homem de beleza clássica, terno engomado com botões de ouro; sapatos perfeitamente engraxados e olhos inexpressivos. Sua boca parecia feita de pregas falciformes que desciam até o início do queixo, coberto por uma camada fina e quase imperceptível de pelugem ruiva.
As crianças eram duas. Um menininho delicado, frágil e aparente, com olhinhos bolinhas de gude e bochechas de morango maduro; seu cabelo liso e louro descia por entre o chapeuzinho cinza com botões de ouro, combinando com os do pai magricela. Seu comportamento mostrava uma criança abatida, de alegria enrustida e sedento de fala, de palavra e ação. A menininha, por sua vez, era espontânea; agia com típica infantilidade masculina, com trejeitos masculinos e vocábulos do mesmo modo. Para disfarçá-la, penso eu, da sociedade cheia de dedos, sua mãe colocara um laço rosa que se postava protuberante no topo de sua cabeça clara.
Por fim, sentada na frente do homem barba ruiva, estava a mãe-esposa. Seu rosto deixava explícito o quanto de dinheiro já investira em cremes e maquiagens de reboque, mas, ainda assim, olheiras desciam por debaixo de seus olhos pequenos, feito leques japoneses. Era corpulenta, não chegando a ser gorda. Sua roupa, também impecavelmente engomada, ornava com a cor do batom que fora pesadamente depositado em seus lábios crispos, e mais tarde seria impresso no copo de cristal.
Após a chegada de todos, o chefe da casa começou a oração. Seus olhos se fecharam forçadamente, para seguir o protocolo e ensinar aos outros como se fazia. O filho tirou seu chapeuzinho, e acompanhou os movimentos do mestre sem vontade alguma. Papai-botões-de-ouro cuspiu rapidamente palavras secas e desacreditadas e ao sinal do “Amém”, corpos despencaram nas cadeiras de mogno polido.
As crianças – com as mãos falsamente lavadas – davam chutinhos uma na outra por debaixo da toalha e a esposa-mãe com cara de quem nem comeu ainda e já não gostou, começou a servir a refeição.
Uma, duas garfadas, um gole de silêncio azedo... e um arroto. Todos olham; olhos de contestação, opressão e ao mesmo tempo indiferença, para a criança ao lado. A menininha com laço enfeitado na cabeça e dente podre solta uma lágrima, como que em resposta aos olhares compreendidos, e rapidamente todos voltam a atenção aos pratos. Sim, não precisam de explicações ou argumentos, a menina chorara... Tudo estava bem.O irmão da menininho, porém, era o único que compreendia. Sabia a revolta que crescia ao fazer-se próprio calar.E ah... Tanta coisa tinha ele a falar!
Se ao menos pudesse abrir um hiato na refeição (único momento do dia em que todos estavam ao menos fisicamente perto um dos outros) e dizer tudo que vinha se acumulando. Queria falar, desabrochar... “Saberia papai que gosto de flores? Flores são belas delicadas e sutis! Sutis, mas com uma presença incrível, capaz de colocar mulheres ao chão em suspiros sonhadores. Ah papai, queria ser uma flor; que exalasse cheiro doce e amadeirado, envolvente aos olhos, à boca e à mente...”, pensava o menino todas as noites ao redor da mesa que tudo ouvia.
Mamãe dos leques infindos queria também questionar. Questionava sua vida vazia de tricotar pensamentos descartados, de lavar roupa suja dentro do seu ser sem poder colocá-las no varal, pra fora da janela. E ah, como sentia falta do sol... Do sol a queimar sua carne flácida e intocada, inflamar-se de vida estelar. Sentia falta do toque, de amar aqueles olhos ruivos e magricelos, e do amor inexpressivo penetrando por todas as partes de seu corpo; sentia falta de aceitação...
A menininha, ainda que nova, também se comovia. Via como se o mundo não entendesse seu modo de ser; não gostava de laços e vestidos; achava-os meros acessórios que não adiantam a vida de ninguém, e que adornos dessa estirpe poderiam ser dispensados, uma vez que atrapalhavam na hora de brincar de pique. Quanto às flores, só gostava de seu irmão. E ela gritava para si “se um dia meu irmão for uma flor, eu poderei ser um cometa! O cometa mais ágil, brilhante e imponente de toda a galáxia! Sairei daqui, e não terei mais que usar laços ou tomar sopa de ervilhas... Odeio ervilhas, essas macilentas e verdolengas bolinhas. Cometas não precisam comer e ganham todas as competições de corrida! Quero ser veloz, quero sair daqui...”
A confusão se instalava alheiamente em cada um. Enquanto isso, goles a seco e mordidas no ar disfarçavam o que as almas não podiam mais. Até as batatas cozidas podiam sentir a tensidade, que chegava a inalar desespero.
Porém, por um segundo... Todos se olharam nos olhos. O cometa com laço na cabeça encarou seu irmão florido e perfumado; intimamente sorriram. A Mãe endireitou-se na cadeira, olhando a todos e finalmente aos olhinhos de ouro, que presenciava tudo com interna angústia.
Por que sua vida era assim, fechada e repressiva?, inconformava o capitão. Ele sentia que seus filhos sentiam medo do mesmo medo que sentia ele por sentir medo. Seu coração enjaulara-se em grades de ferro oxidado, e a chave se perdera entre as vísceras pretas do seu corpo. Queria poder pedir desculpas a seus amores pela metamorfose de sua alma... Queria brigar com ela por tê-lo transformado em um pedaço de carne branco e passivo, cujas remotas emoções permaneciam coladas em teu coro duro. Queria, queria tanta coisa... Porém calava. Sua vida estabilizada o inflava de insegurança para dizer o que realmente pretendia, e seu medo, advindos da infância e de vidas passadas de sentar-se em mesa muda, o aconselhava que o melhor era assim deixar.

Outro gole de tomate seco, uma mordida de suco laranja. Um último olhar de silenciosa aceitação.

...E nada (sempre e nunca) se fala; a atenção volta-se novamente para os pratos e escuta-se só o tilintar das vidas de porcelana batendo umas nas outras, esperando que a outra quebre e manche a toalha da sagrada comunhão.

2 comentários:

bliss disse...

sou péssimo pra comentários, mas queria falar que fiquei feliz em ter mais uma coisa para esperar durante a semana.

gostei muito, vou tentar ler tudo =p

Alice Gabriella disse...

vou parar de escrever depois disso.