segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

CATARSE

Você entrou na minha vida do nada, sem pedir passagem ou permissão, como aqueles ventos que invadem a nossa janela em noites monótonas. E o vento era agridoce, calmo, que me aconchegava e me fazia pedir mais, sedenta não só pelo vento, mas pela tempestade que temia também por vir. Eu ansiava por teu cheiro de terra molhada, queria ficar cega com sua luz, surda com sua voz trovão. Queria tudo e ao mesmo tempo nada... Só a amizade já me faria aquietar o espírito. E você, como que lendo nas entrelinhas do meu pensamento, fez por merecer e tomou minha mente por dias a fio.
Esses dias causaram deleitamento profundo em meu coração, cabelos, pele, mãos. Sentia-me feliz por meus dedos conversarem com seus risos nas horas monótonas do trabalho e, vez ou outra, escutar sua voz constipada, falha e internamente doentia pelo telefone. Era uma droga pra mim, daquelas que te deixam no perfeito estado de querer fazer tudo e nada ao mesmo tempo, e ao fim só contemplar como as coisas não eram tão ruins como eu pensava.
Do nada, sem mais ou motivos, o vento cessou. Minha pele secou, meus olhos – antes cegos e felizes – agora voltam a enxergar a dureza dos dias de escritório, a verdade crua de que, na verdade, isso nunca existiu. Drogas provocam alucinações, ficou comprovado. Um ano inteiro de tempestades, bater de janelas, arco-íris, e hoje... Nada. Somente a aridez dos dias roendo-me a garganta e dando coceira. Esse ardor há dias mastigando meu estômago, me cutucando no interno desejo de querer fazer o que meus dedos agora fazem a vez, explodir.
Não sei por que ainda perco tempo ritmando palavras das mais variadas formas, pra ver se a sua atenção é chamada - você não merece – muito menos entendo porque minha mente insiste em pensar que um dia você vai voltar e delicadamente por a ordem tão confusa e desaprumada de volta. Na verdade, meu coração não quer mais isso... Isso são só minhas veias pulsando incompreensão qualhada, esperando que as palavras de alguma forma me limpem os canos, vísceras e sentimento. Nada mais é também do que um ponto final que imponho a mim mesma.
Se um dia tiver a remota idéia de pensar em me procurar, que a acidez te corroa os pensamentos e nada sobre senão gesso. E se um dia o arrependimento pela ausência repentina tomar seu ser, quero que tenha consciência de que as janelas se quebraram, a grama está seca, e as estradas que nos separam saíram do plano do asfalto pra entrar no do orgulho; você perdeu a oportunidade de ver o melhor de mim, meu melhor lado e cor.

E essa cor não volta mais.

Um comentário:

Luiz disse...

já havia lido, lei e releio sempre. me faz tomar um pouco do doce veneno que lhe dei, me faz sentir o que sentiu. Por devaneio pego-me pensando em ti, dce ilusã de um dia ter-lhe de volta.